O fim está próximo?

Essa citação constantemente feita por meu professor de história, coloca não apenas mais uma interrogação nessa fase da vida, mas na verdade, uma grande reflexão a respeito. Depois de tantos anos em uma rotina confortavelmente desconfortável, chego a pensar se quero mesmo que tudo mude. É óbvio que tenho um sonho, um futuro e mil planos para realizar, porém depois de 13 anos acordando cedo, fazendo as mesmas coisas e reclamando dessa monotonia, eu confesso que sinto um friozinho na barriga e “aquele” leve aperto no coração.

O fato de eu detestar o sistema educacional brasileiro, o modo como as carteiras se posicionam e todas as ligações entre carbono e hidrogênio que preciso decorar não me faz gostar menos dos laços que criei com tudo isso, principalmente com as pessoas na mesma situação de desespero que eu. Até por que, foram esses relacionamentos e toimg_0750dos os detalhes que eles me proporcionaram que me moldaram e me fizeram amadurecer tanto. Excepcionalmente nos últimos 3 anos de Ensino Médio isso foi  mais perceptível, já que foram anos determinantes para meu futuro nos melhore e piores quesitos. Com isso, concluo que “coisas sem graça”, como essas é que dão graça na vida.

Apesar de eu simplesmente desejar de corpo e alma, que se perca mais tempo vivendo do que pensando em possíveis mudanças e melhores resoluções para o que vejo como problema ou má situação, tenho muito a agradecer por ter passado por tantos “buracos” desse tipo. Pense comigo: o que seria de lugares em que se forma pessoas, onde todo mundo concorda completamente com tudo o que faz? Não criticar, questionar ou querer mudar? Se isso está acontecendo onde você está, principalmente na escola, provavelmente tem algo errado. E não é apenas sobre ser “a(o) chata(o)”, mas consentir com 100% do que se vive, faz de você no mínimo sem senso crítico o suficiente para não imaginar melhores situações e modos de resolver um problema. Porém se ainda sim, a sua opinião é contrária a minha, e você concorda em ter mil matérias e decora-las, apenas o aplaudo em pé em ter tanta capacidade de digerir tanto conteúdo e o seu dia ter mais horas que o meu.

Bom, eu não quero esse mundo de consenso e espero que esse pensamento seja pelo menos o único a se manter diante a tantas mudanças que estão por vir. E entre tantas mudanças, algumas afirmações nunca mudam: “Ah, mas pelo menos ano que vem você vai estudar o que gosta e vai dar tudo certo, “Nossa, você finalmente vai morar sozinha, que maravilha”. Mas queria falar outra coisa para você, não é só isso que está em jogo.

Além do fato de ter grandes possibilidades de eu ir para o purgatório, popularmente conhecido como cursinho, passar na faculdade não é simplesmente liberdade, é apenas mais um ciclo. Apesar de obviamente eu estar almejando morar em outra  cidade e estar “sozinha”, é nítido que isso é só mais uma pedalada na bicicleta. img_0742E diante disso, a diferença se encontra em agora tirar aquela duas rodinhas, o apoio confortável e que me deu segurança até aqui. O leitor pode interpretar como quiser esse conforto, seja família, amigos, rotina, seu cantinho… Mas uma coisa é fato: tirar o que tem te dado apoio direto, vai fazer com que você vá mais rápido, mais longe e, principalmente, encontre seu próprio equilíbrio.

Para que isso ocorra e aquele frio na barriga passe, é nesse momento que um empurrão e um grito de “Vá, você consegue”, “Você já treinou muito com o apoio, agora é sua vez”, “Apenas olhe para a frente e ache seu equilíbrio”, faz toda a diferença. E diante disso, e de todos os fatos que me circundam, eu só poderia desejar que essa analogia com uma bicicleta funcionasse plenamente e img_0745todas as horas de reflexão durante esses anos, debates críticos a respeito de inúmeros assuntos, horas estudadas, fim de semanas “perdidos”, fizesse dessa possível mudança menos bruscas, mais fácil, eficiente e que eu me sentisse mais preparada.

Assim, por esses e outros mil motivos, uma reforma em toda essa estrutura de educação se faz cada vez mais necessária. A bicicleta interpretada como uma formação para a vida necessita de reparos. A insegurança em pedalar em novos lugares sem um apoio direto ou um empurrão, obviamente poderia ser amenizada, porém as escolas não tem nos preparado o suficiente, fazendo de algumas subidas quase impossíveis, até mesmo para a pessoa mais forte e treinada. E a principal questão a respeito é como que um país do nosso porte e com tantas pessoas especializadas no assunto ainda não entendeu que estamos tendo que treinar superficialmente sobre o todos os tipos de conteúdo, mas não sabemos nada a respeito de pedalar em outros lugares fora desse chão liso e mentiroso em que nos colocam?

O saber tudo e não saber nada, é minha definição para o Ensino Médio do Brasil e diga-se de passagem que esse cenário está mudando. Mas, é necessário entender que a real necessidade é a percepção crítica por parte do jovem, antes de qualquer mudança em conteúdo. É necessário ver que jovens como eu, estão com todo o apoio para continuar seguindo sozinhos, porém o que nos tem limitado é lidar com habilidades que não possuímos. Jovens como eu que se sentem preparados em alcançar seu sonho e ao mesmo tempo limitados por conteúdos completamente específicos e profundos em áreas que não possuem qualquer ligação com seu futuro. img_0744Jovens como eu que não sabem fazer uma ligação interurbana, pagar uma conta, andar de ônibus ou mandar uma carta, porque estão sendo “obrigados” a parar tudo para arriscarem passar no vestibular. Jovens como eu, que também podem não ter quaisquer apoio nessa formação e assim passam diariamente por buracos sem qualquer empurrão e alguns infelizmente, ficam por lá.

Concluo esse texto/desabafo, apenas dizendo que tudo isso, tudo mesmo, é apenas um grande começo, mas que ao mesmo tempo é um fim. E esse fim, é de apenas um caminho, de um terreno já explorado. Talvez esse caminho pudesse ser mais sinalizado ou treinado de uma forma diferente, porém ainda sim foi bom em algum sentido ter passado por ele desse jeitinho. Mas, continuo a desejar que novos treinadores surjam para essa maratona, e muitos passem nessa linha de chegada ou ao menos consigam dar a largada. Almejo também, que não só todos os “jovens como eu” alcancem seus respectivos equilíbrios e sonhos, mas que também saibam escolhê-los e encontrar o verdadeiro significado de suas escolhas sozinhos. Até por que as principais lições da vida não são, por exemplo as leis de física e em que se analisa força, altura, velocidade e gravidade em uma queda. A verdadeira lição estará feita quando uma escola formar cidadãos que saibam o que é essa tal de bicicleta, e o que é cair, levantar ou simplesmente pedalar por aí, fazendo o que gosta em uma velocidade não equacionada ou contabilizada em dinheiro e não por inércia quando mandam e parada quando um sinal toca.

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