Explosão de dentro para fora.

O chão está cheio de poeira mas, de certo modo não está muito diferente de toda minha casa. Aqui a tristeza reina e a indisposição prevalece. Minha mãe não cozinha e nem limpa a casa, comemos na minha vó que que mora ao lado, meus irmãos fingem estar felizes brincando com seus carrinhos, mas é fato que estamos sendo esfaqueados pela solidão. Há inúmeras perguntas sem respostas, inúmeros cômodos em uma casa e um coração inteiramente despedaçado.
Bom mas não foi sempre assim… Meu pai, era um homem bom, podemos dizer. Tratava muito bem nossa família e fazia o máximo para agradar minha mãe e deixar ela satisfeita. Ele trabalhava a tarde toda, e dizia ter escolhido isso para receber mais, o que era verdade já que sua renda era suficiente para deixar minha mãe apenas cuidando de nós, muito feliz e tranquila.
Assim, ele sempre estava ocupado a tarde toda, chegava em casa apenas para literalmente jantar e dormir. Nossas conversas eram razoáveis e distant”es, mas ao menos eu conversava com ele, o afeto e carinho cada vez menos frequente e reduzido à educação mínima. Eu e meus irmãos amávamos nossa mãe, mas precisávamos de um pai também, e o que tínhamos era um homem cansado de trabalhar, que chegava pronto para dizer boa noite.
Suas folgas eram classificadas por mim e meu irmãos como “uma vez em nunca”, porém a exatamente 67 dias atrás, ele foi trabalhar e diria que no dia seguinte estaria de folga. Ficamos todos empolgados por poder passar a tarde com a familia toda depois de anos e eu já podia ver o brilho nos olhos da minha mãe, que logo transbordariam os mil planos em mente.
Inesperadamente, meu pai atrasou e não apareceu. No dia seguinte, o tão esperado sábado, meu pai simplesmente sumiu e não só ele, como tudo que se refere a ele, roupas, sapatos, anotações, fotos tudo. Desde então tudo mudou, exceto uma coisa: as perguntas. Essas se mantiveram fieis e são exatamente as mesmas desde aquele sábado.
Ninguém sabe, porque, onde, como, quando irá voltar… não sabemos nada! Nem a polícia, nem amigos, nem parentes, nem ninguém. Nao há nada que se prove, ninguém que escute ou nos ouça.. A ultima coisa que sabemos é uma ligação. Simples, curta e direta, ele apenas havia respondido “Sim, senhor” e se foi batendo a porta rudemente.
Me lembro de estarmos indo dormir, e o telefone tocar. Meu pai voou no telefone para atender, como se soubesse que fosse para ele. Não quis questionar sobre quem seria e do que se tratava, eu sabia que ele não me responderia e diria algo do tipo “conversa de homens” ou ainda “não é da sua conta”. E isso realmente contrastava com a realidade como pai, pois fora de casa, ele pedia que não comentássemos, pois era um trabalho estressante, e realmente ninguém mudava essa palavra, nem mesmo minha mãe.
Com mil pontos de interrogação, não há uma conclusão, mas com uma lembrança, muito do que está acontecendo toma tomaram. Hoje me lembrei de uma vez ter vindo aqui no sótão e ter visto essa caixa de sapato quando era mais novo. Hoje percebo que ela tem aspecto comum por fora, apesar de ser um tanto quanto antiga. Na primeira vez que a vi não reparei muito nela, eu estava brincando de esconde-esconde com meus irmãos e não quis mexer para não fazer barulho. Mas enfim então, aqui estou de frente com ela denovo, depois de 4 anos e de 67 dias o de meu pai ter sumido e percebo que por dentro o seu aspecto, ou melhor a realidade que mostra, é bem diferente.
Realmente não sei por que lembrei dela, mas ao abrir fico surpreso que só tenha coisas do meu pai e que provavelmente foi um acidente ter deixado elas aqui. Porém não se referem a qualquer coisa, tudo muda daqui para frente, e talvez nem mesmo que meu pai queira voltar,eu o desejaria ter por perto. O que ele fazia fora de casa é inadimissivel por qualquer tipo de pessoa, qualquer crença. Ninguém em sã consciência conversaria com um ser humano que age feito um animal. Eu não o reconheço mais.
Dentro da caixa há cadernos com anotações, desenhos preconceituosos, recortes de jornal, viagens e postais do mundo todo. Mas o que mais me chamou atenção foi uma foto com muita gentes armada em um cenário de terror, e um recorte retirado exatamente no rosto de um homem, ele. Sei disso, pois há outras inúmeras fotos em que o reconheci uniformizado, porem nessa há cadáveres por todos os lados e um semblante de orgulho e vitória que não consigo descrever.
Acabo de me deparar com assassino, um terrorista. Ele não trabalhava para um escritório de negócios e viajava em negociações de empresas; ele era um radical treinando e envolvido em ataques. Agora tudo fazia sentido e ao mesmo tempo tudo perdia sentido. Meu pai claramente cuidava de como tudo ia ocorrer, das datas, locais, tudo no que diz respeito a planejamento, junto com outros “pais de famílias” que iam para um escritório “trabalhar”, e não há dúvidas, essa caixa de sapato diz tudo o que ele dizia, ele estava sempre planejando matar. Essa era a inquestionável e desconhecida face do meu pai.
Talvez, se ele tivesse apenas sumido teria doído menos em meu coração, agora meu pai é um estranho, ele mata pessoas inocentes, e eu não o reconheço. A caixa toda o denúncia, na verdade a caixa é apenas seus segredo, a sua outra vida, que agora deve ser a única que está vivendo. Não para fazer bem à sua família que o ama e ainda morre de saudades, mas sim para se tornar o monstro que hoje eu descobri que ele é. Talvez, chorar agora seja tarde demais, eu apenas, olho para essa caixa esquecida no porão, e percebo que ocorre o mesmo entre minha família e meu pai. Como ele pôde nos jogar assim no sótão da vida dele e nos esquecer?
Ao menos, um dia as lágrimas secaram, e talvez nossas vidas voltem ao normal. No momento, apesar da descoberta, há poucas coisa que sei. Irei guardar a caixa exatamente onde eu a encontrei, no porão, onde brinquei com meus irmãos há 4 anos atrás e fingir que nada aconteceu, continuar em um luto de alguém que agora queria que estivesse morto. Em breve, os sentimento de angústia e raiva vão silenciosamente me dominar e um dia vou eu mesmo explodir com tudo isso. Uma sensação que já posso sentir e ver os feridos, minha família ao meu redor sofrer junto. Mas por enquanto, ninguém mais precisa saber, a dor que minha família tem sentido basta e substituir perguntas não é responder um problema, ainda mais se o problema nao se resume ao meu pai ter sumido e sim o que ele é.

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